O contrato está quase fechado e chega a planilha: mais de cem perguntas sobre criptografia, backup, controle de acesso e, quase sempre, a data do último pentest. Para um SaaS B2B, o questionário de segurança virou etapa de venda. Quem responde rápido e com evidência encurta a negociação; quem improvisa trava o contrato no jurídico ou no time de segurança do cliente.
Este guia mostra por que o cliente manda o questionário, o que ele costuma perguntar, como responder e o que nunca enviar.
Por que o cliente manda o questionário
Porque o seu software passa a fazer parte do risco dele. Se o fornecedor é invadido, os dados e muitas vezes o acesso aos sistemas do cliente vão junto; é o cenário de ataque à cadeia de fornecedores. Há também dois motivos legais:
- LGPD. Na maior parte dos contratos de SaaS, o cliente é o controlador dos dados e o fornecedor é o operador. O art. 39 manda o operador tratar os dados conforme as instruções do controlador, que deve verificar se elas são seguidas, e o art. 46 exige de ambos medidas de segurança aptas a proteger os dados. O questionário é a forma de o cliente registrar que verificou.
- Regulação setorial. Clientes regulados têm a verificação imposta por norma. No sistema financeiro, a Resolução CMN 4.893/2021 e a Resolução BCB 85/2021 obrigam a instituição a avaliar o fornecedor antes de contratar serviço relevante de processamento, armazenamento de dados ou computação em nuvem, e o software executado pela internet pelo próprio fornecedor entra nessa definição.
Os formatos mais comuns
- Planilha própria do cliente. É o formato mais frequente no Brasil: perguntas tiradas da política interna, da ISO 27001 e da LGPD.
- CAIQ. Questionário da Cloud Security Alliance, com perguntas de sim ou não ligadas à matriz de controles de nuvem da entidade. Pode ser publicado no registro público STAR como autoavaliação.
- SIG. Questionário padronizado da Shared Assessments, com uma versão resumida e outra completa, comum em clientes de fora do país.
- Certificado ou relatório no lugar das respostas. Certificação ISO 27001 e relatório SOC 2 encurtam o questionário, mas raramente o eliminam: o cliente ainda quer saber do que o escopo certificado não cobre.
O que quase todo questionário pergunta
| Tema | Pergunta típica | Evidência que resolve |
|---|---|---|
| Governança | Existe política de segurança e um responsável pelo tema? | Política aprovada pela direção e nome do responsável. |
| Controle de acesso | Há MFA, revisão de acessos e desligamento de contas de quem sai? | Procedimento e captura da configuração. |
| Isolamento entre clientes | Como os dados de um cliente ficam separados dos de outro? | Descrição da arquitetura e resultado do teste de isolamento. |
| Criptografia | Os dados são cifrados em trânsito e em repouso? | Configuração de TLS e de gestão de chaves. |
| Desenvolvimento seguro | Há revisão de código e controle de dependências? | Fluxo de revisão e ferramenta de análise usada. |
| Vulnerabilidades e pentest | Quando foi o último pentest, quem fez e o que foi corrigido? | Carta de atestado, sumário executivo e evidência de reteste. |
| Backup e continuidade | Qual é o tempo de recuperação e quando o backup foi testado? | Registro do último teste de restauração. |
| Incidentes | Existe plano de resposta e prazo para avisar o cliente? | Plano e cláusula contratual de comunicação. |
| Subcontratados | Quais fornecedores tratam os dados e em que país ficam? | Lista de suboperadores e regiões de hospedagem. |
| LGPD | Há encarregado, e os dados são devolvidos e apagados no fim do contrato? | Contato do encarregado e procedimento de exclusão. |
Como responder: seis regras
- Responda a verdade, inclusive o "não". O questionário costuma virar anexo ou declaração do contrato. Um "sim" que não se sustenta é passivo jurídico; um "não, com implantação prevista para tal data" é uma resposta aceitável.
- Mantenha uma base única de respostas. As perguntas se repetem de cliente para cliente. Guarde respostas e evidências num só lugar e revise a cada trimestre.
- Troque adjetivo por evidência. "Levamos segurança a sério" não responde nada. "MFA obrigatório para todos os colaboradores desde março" responde.
- Use "não se aplica" com justificativa. Se não há data center próprio, diga quem hospeda e aponte a certificação do provedor de nuvem.
- Publique o básico. Uma página de segurança com política resumida, certificações, suboperadores e contato reduz o vai e vem antes mesmo de o questionário chegar.
- Divida o trabalho. Engenharia responde o técnico, o jurídico revisa o que vira compromisso, como prazo de aviso de incidente e direito de auditoria.
O que não enviar
- Relatório técnico completo de pentest. Ele descreve como explorar o sistema. Envie a carta de atestado e o sumário executivo; se o cliente exigir o detalhe, mostre em reunião, com acordo de confidencialidade.
- Diagramas com endereços, configurações ou segredos. A arquitetura pode ser explicada sem o mapa para chegar a ela.
- Lista de vulnerabilidades em aberto. Informe a existência de um processo de correção e os prazos por severidade, não os itens.
- Evidência com dados de outros clientes ou de pessoas. Captura de tela com nome, e-mail ou registro real cria um incidente dentro da resposta.
A pergunta do pentest
É a que mais derruba prazo, porque não dá para resolver na véspera. O que o cliente espera encontrar:
- teste recente, em geral dos últimos 12 meses;
- feito por terceiro independente, e não só por ferramenta automática;
- com escopo que cobre o que ele vai usar: a aplicação, a API e o isolamento entre clientes;
- com correções confirmadas por reteste.
Tenha prontos três documentos: a carta de atestado, com quem testou, quando, o escopo e a metodologia; o sumário executivo; e a situação das correções. Um certificado de pentest que o cliente consegue validar poupa uma rodada de perguntas. Se a empresa nunca testou, diga isso e informe a data contratada; entre agendar, executar, corrigir e retestar passam semanas. O pentest para SaaS é desenhado para esse uso.
Quando o cliente é banco ou fintech
O questionário segue a lista do regulador. O art. 12 da Resolução CMN 4.893/2021, repetido na Resolução BCB 85/2021 para instituições de pagamento, manda verificar se o fornecedor consegue assegurar:
- o cumprimento da legislação e da regulamentação;
- o acesso da instituição aos dados processados ou armazenados;
- a confidencialidade, a integridade, a disponibilidade e a recuperação dos dados;
- a aderência às certificações que a instituição exigir;
- o acesso aos relatórios de auditoria especializada independente contratada pelo fornecedor;
- informações e recursos para monitorar o serviço;
- a identificação e a segregação dos dados dos clientes da instituição, por controles físicos ou lógicos;
- a qualidade dos controles de acesso que protegem esses dados.
O contrato, por sua vez, precisa prever onde os dados ficam, a devolução e a exclusão no encerramento, o aviso sobre subcontratação e o acesso do Banco Central às informações. Chegar à negociação com esses pontos respondidos é o que diferencia o fornecedor que o banco aprova do que fica meses em análise. Para quem vende ao setor, vale ler também o que mudou com a Resolução BCB 538/2025.
Antes de o próximo questionário chegar
- Política de segurança aprovada e responsável definido.
- MFA em tudo o que é administrativo e em todo acesso a dados de cliente.
- Lista de suboperadores e regiões de hospedagem atualizada.
- Teste de restauração de backup feito e registrado.
- Plano de resposta a incidentes com prazo de aviso ao cliente.
- Pentest dos últimos 12 meses, com carta de atestado e reteste.
- Base de respostas e pasta de evidências revisadas.
Se o próximo passo for uma certificação, veja como o teste entra em SOC 2 e em ISO 27001.
Perguntas Frequentes
O que é um questionário de segurança?
É a lista de perguntas que uma empresa envia ao fornecedor para avaliar como ele protege dados e sistemas antes de fechar ou renovar um contrato. As respostas costumam virar parte do contrato.
Posso enviar o relatório de pentest completo ao cliente?
Não é recomendado, porque o relatório técnico descreve como explorar o sistema. O usual é enviar uma carta de atestado e um sumário executivo e, se necessário, apresentar o detalhe em reunião, sob acordo de confidencialidade.
ISO 27001 ou SOC 2 dispensam o questionário?
Encurtam, mas raramente dispensam. O cliente ainda pergunta sobre o que está fora do escopo certificado, sobre suboperadores e sobre a data do último pentest.
O que fazer quando a resposta honesta é "não temos"?
Responder "não" e informar o plano, com data. Uma lacuna declarada, com prazo, costuma ser aceita; uma resposta falsa vira descumprimento de contrato quando for descoberta.
De quanto em quanto tempo o cliente espera um pentest?
A prática mais comum em questionários e contratos é pedir um teste dos últimos 12 meses, além de novo teste quando o produto muda de forma relevante, como uma nova API pública ou um novo modelo de permissões.
